Memorial de Leitura
Raul Dantas da Silva Neto
“A leitura é uma fonte inesgotável de prazer, mas por incrível que pareça,
a quase totalidade, não sente esta sede.”
Carlos Drummond de Andrade
Ler infelizmente não tem sido o melhor dos prazeres para muitos, talvez acreditam que a leitura de mundo lhe bastam. Várias são as razões que impedem ou não favoreçam o homem a ler: o trabalho, a rotina diária, o dinamismo da atual sociedade que o consome. Paradoxalmente muitos leem, leem por compromisso, necessidade, obrigação. A leitura, aquela, espontânea, prazerosa, que nos leva a outros mundos, faz-nos sonhar, esta tem sido pouco degustada.
Acredito ter feito minhas primeiras leituras de forma não natural, calma, vou explicar, ainda não tendo luz, sentia (não lembro, mas acredito) as palavras que meus pais a mim dirigia, ainda um feto estava sendo alimentado pela melhor leitura, aquela que revela verdadeiros sentimentos.
Minha mãe, primeira professora que tive, no seu pouco estudo, sabia o valor do estudo, da leitura, dizia sempre: é preciso ter leitura. Leitura é tudo. Houve um tempo que o conhecimento era metonicamente associado à leitura, grande era o homem que tivesse leitura. Isso minha mãe me ensinou, a leitura que constrói, que forja e liberta. Embora ela não tivesse conquistado esses domínios, soube implantar em mim este gosto; eram tremendas as leituras que através de sua boca chegavam até a minha pessoa. Palavras que unidas ao fantástico, estavam sendo conduzidas por nossa primeira fortaleza, nossa incondicional protetora. Este elo hoje me faz entender o quanto todos que fazem parte desse processo são importantes: quem ler, quem incentiva o ler, o que se ler; enfim, a leitura não se constrói só. Bakthin já dizia, o “eu” se constrói através do “outro”.
Lembro-me como se fosse hoje das primeiras decodificações, “leituras”, apressadas, cautelosas, cansativas e desafiadoras que fazia nos primeiros passos de minha interação com o universo letrado. Era fantástico unir letras, formar palavras, pouco importava o “signo lingüístico”, a semântica eu queria “ler”, mostrar que sabia ler, sem saber eu queria SER. Em todo o lugar, em todo o tempo, acompanhado de meus pais, ali eu lia, nos ônibus que meu pai conduzia uma outra leitura era construída, a do mundo, viajávamos e não cansava ele de me explicar tudo o que nos rodeava, minha sede de aprender e o orgulho de um pai ao ver seu filho crescendo construía-se a leitura PAFIMUN, Pai, Filho e Mundo integrados numa missão fabulosa: somos o mundo, ele nos pertence, precisamos conquistá-lo.
Tive a oportunidade de sempre estudar em escolas particulares, minhas primeiras professoras, que dedicação!! A hora da leitura acompanhada, até hoje não sai de minha cabeça, momentos exaustivos, em busca do grande prêmio, conhecer o mundo através das letras.
No ensino secundário, as crônicas e os textos multimodais tiveram destaque, é claro que este não era assim chamado; as crônicas de Fernando Sabino publicadas no Diário de Pernambuco na década de 80 conduzíamos toda segunda-feira a momentos de leitura e reflexão, nosso mestre ali a frente da turma que em sua maioria não o respeitava tinha compromisso com o seu fazer, almejava forjar em nós verdadeiros leitores; os textos publicitários trazia o fascínio de unir letras e imagens numa composição persuasiva.
Foi ainda nesta época de estudo que minha veia literária se propôs a de fato nascer, o reconhecimento que flores não estavam apenas nos jardins, mas andavam, conversavam, brincavam, estudavam, olhava, olhava, permitiu-me cognominar. Um poeta na escola de regras rígidas nascera. Quem era o LUAR? Secretamente breves versos circulavam cognominados de (três estrelas e um lua ao centro – esta era a logomarca, utilizada inicialmente) LUAR. Esse era o RAUL que se desenvolvia.
No segundo grau minhas leituras foram mais técnicas, em face ao curso profissionalizante que fiz, porém, aliada, quando possível aos textos da literatura clássica brasileira. Encantado fiquei, do ponto de vista literário, com as biografias de grandes escritores como Castro Alves, Machado de Assis, Drummond.
A faculdade me abraçou com suas letras, preferia os números, naquele momento, mas, enfim, aconteceu que as letras foram me seduzindo e fui me identificando com esse universo lingüístico. Conclui o curso de Letras na FUNESO, Olinda em1998 e tenho me esforçado para proporcionar aos meus alunos momentos prazerosos de leitura. Sou pós-graduado em Linguística e foi com o Gestar II que novas concepções de linguagens me convidaram a reviver um sabor que esteve presente no início de minha caminhada docente e que hoje me conduz para novos horizontes, pois os discursos se cruzam a promover sabores necessários de serem degustados.
“A leitura traz ao homem plenitude, o discurso segurança e
a escrita exatidão.”
Francis Bacon
domingo, 14 de junho de 2009
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